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Violência e Sexo nas HQs

Marcos X-Salada 1 de fevereiro de 2012 Opinião 4 Comentários
Violência e Sexo nas HQs
Apesar do nome, essa resenha nada tem a ver com a história do X-Force recentemente publicada por aqui em “Grandes Heróis Marvel” – número 04 e 05.

Tenho um amigo que não gosta de Star Wars. Como sou grande fã da trilogia original, ele julga necessário me explicar – o tempo inteiro – seus motivos para não gostar da série. Não que eu tenha perguntado… Recentemente ele me explicou que o maior problema de Star Wars é o PG. Ou PG13, não lembro bem… O que ele quis dizer é: “Star Wars seria muito melhor se tivesse mais violência e sexo”. E eu discordo. Completamente. Quanta violência é violência demais? Existe essa história de “violência demais”?

Na minha opinião, nos quadrinhos, assim como em todas as mídias, é necessário haver uma certa limitação ou restrição quanto à idade para as quais certas histórias serão veiculadas. Sei que chega a ser perigoso discutir censura no Brasil – especialmente poucos dias depois das manifestações contra o SOPA e PIPA – mas as pessoas tendem a associar a censura com o AI5: uma ideia, lamentavelmente, equivocada.

Nem toda censura é do mal! Nem toda censura tem o propósito de acabar com a felicidade e o tráfego de informação do mundo! As vezes a censura tem o simples propósito de indicar a partir de que idade a digestão de determinado material começa a ser apropriado. E, já que comecei falando de Star Wars, eu ficaria extremamente triste se Luke jorrasse sangue após ter sua mão decepada. Também ficaria triste se a Leia estivesse com os seios à mostra na cena com o Jabba. Por que? Porque eu só teria tido a oportunidade de ver esses filmes depois de meus 14 anos! Filmes esses que moldaram minha infância!

Veja bem, não sou contra violência em filmes, nem em HQs. Acho que os melhores trabalhos de vários de meus autores favoritos estavam profundamente ligados à isso. Que o digam Tarantino e Scorsese. Se alguém já leu Destroyer sabe do que estou falando. WE3, umas das HQs mais surpreendentemente divertidas de todos os tempos tem seus dois pés (ou quatro patas?) afundados em violência pura. Os três bichinhos não conseguem não ser violentos. Não há como fazer Destroyer funcionar sem violência. Assim como não há como fazer Milo Manara desenhar algo que não envolva mulheres nuas e sexo; Manara é um italiano que passou 40 de seus 66 anos pensando em sexo!!! Ele só sabe fazer isso! É importante, no entanto, salientar que o público-alvo dessas histórias tem de estar preparado para o que vai ler logo que virar a página. E essa é a função dos Parental Guidance Codes.

Outro ponto importante é o conteúdo explícito. Em Desvendando os Quadrinhos, de 1993, Scott McCloud explica a importância do uso da narrativa e layout para a história. O autor trás à tona um dos elementos mais importantes, mas muitas vezes esquecido, da narrativa gráfica: a sarjeta! A sarjeta é aquele espaço vazio entre um quadrinho e outro; um espaço não específicado que pode remeter à passagem de tempo, espaço, pausa; uma verdadeira infinidade de significados! Considerando que nas HQs tempo e espaço dividem o papel, o leitor é o responsável por preencher os espaços da sarjeta com sua própria imaginação. Pode parecer balela ou papo neo-hippie, mas essa é a verdade! A imaginação do leitor é quem vai decidir o que aconteceu entre os dois quadros abaixo, por exemplo: 

Me lembro disso sempre que converso com meus irmão sobre filmes de nossa infância. Em determinada discussão não concordávamos com o que tinha acontecido com um dos vampiros de Garotos Perdidos. Eu achava que ele tinha derretido, meu irmão achava que ele havia explodido e meu irmão mais novo dizia que “tinha sangue, com certeza”.  No tira-teima re-assistimos ao filme juntos e, para nossa absoluta surpresa, o filme não mostra o que acontece com o vampiro! Os rapazes preparam a estaca, miram no peito e… corta a cena para o exterior da caverna, ouve-se um grito e pássaros voam (presumidamente) assustados. FIM da CENA! Isso quer dizer que, por pelo menos 10 anos, cada um de nós tinha montado a cena da morte desse vampiro de maneiras diferentes em nossas cabeças! O mesmo acontece nos quadrinhos. Quando o autor sabe usar a sarjeta, ele pode deixar uma ideia do que aconteceu sem ter que explicar exatamente o que aconteceu. Um exemplo muito famoso disso é a morte do Coringa em TDKR (Batman – O Cavaleiro das Trevas) do, então talentoso, Frank Miller. 

O Coringa morre, Batman está do lado e não só a polícia de Gotham mas milhares de leitores chegam a mesma conclusão: Batman matou o Coringa. Mas não!!! Ele não o matou! Olhem de novo! A política da DC quanto à Batman cometendo assassinatos era firme. Miller escapou disso elegantemente, levando leitores à uma conclusão sem explicitar seus meios! Sim, senhores, Miller já foi bom…

Volto à pergunta que fiz no começo do texto: quanta violência é violência demais? Existe uma idade para a violência fictícia? As crianças tendem a associar punição com educação. E são educadas a aceitar que as coisas sejam assim; cantigas de ninar se esforçam ao máximo para nos manter de consciência pesada a todo momento (lembre-se de Cai Cai, Balão, A Canoa Virou e Boi da Cara Preta). Os estúdio Disney, seguindo esse mesmo preceito, puni todos os vilões de seus clássicos. Muitos deles com a morte! É certo, portanto, poupar as crianças disso?

Jill Thompson no FIQ por R2P2

No FIQ-BH 2011 - a maior convenção de quadrinhos da América - Jill Thompson deu uma resposta fenomenal à isso: “as crianças tem que estar preparadas para o Apocalypse Zumbi!” Não há como discordar. É importante medir, contudo, quanto elas devem ver. Acho que os artistas deveriam saber usar melhor o poder da indução e medir o que vai na sarjeta. Não há necessidade de levantar a cabeça do cesto para provar que a guilhotina funcionou!  A lâmina que desceu zunindo e ficou ensanguentada já cuidou disso!!!

Laura Hudson, editora do Comics Alliance recentemente postou um comentário furioso quanto à cena de sexo de Batman com Mulher-Gato (entre outras coisas). Sua principal bronca era a total ausência de bom-senso na cena. Toda a sequência produzida como uma enorme “fan-service” ou “money-shots” – termos usados para imagens que nada acrescentam a trama além de um vislumbre no corpo das personagens femininas com intenção erótica.

Acho que deve, sim, haver essa intervenção no sentido de poupar leitores que não são maduros o bastante para desfrutar de determinados materias. E acho que deve haver, acima de tudo, uma razão para a exibição explícita de determinado conteúdo. Se não há um motivo, qual seria a diferença desse conteúdo para o pornô?

E você, leitor? O que tem a dizer sobre isso? Concorda, discorda ou não dá a mínima? Deixe sua resposta nos comentários abaixo ou mande-nos um email para [email protected]

Agradeço ao R2P2 pela foto da Jill Thompson no FIQ!!!

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4 Comments

  1. Rafa Rhoads 1 de fevereiro de 2012 at 16:45

    Isso é a forma perfeita de reduzir uma discussão de horas, extremamente complexa a “sexo e violência”. Star Wars é uma merda porque é feito pra crianças entenderem, tem aliens rasos, sistemas políticos rasos, hierarquias rasas, tudo raso, tudo pobre, porque é pra crianças e crianças são burras e não entenderiam dramas complexos entre personagens ou diferenças drásticas do comportamento social alien pro nosso.

    A questão do sexo e violência não tem absolutamente nada a ver com o meu desprezo por Star Wars, seu emo. aeiuhaeiuaehiuaeha

    • Marcos 1 de fevereiro de 2012 at 17:18

      “…desprezo por Star Wars”… sinceramente, nem sei mais o que ia comentar depois de ler tal absurdo.
      Não gostar da segunda trilogia, okeeeeeeeey. Mas de Star Wars como um todo é um desrespeito hahahah

  2. Marcio Bertoli 1 de fevereiro de 2012 at 19:42

    Os anos oitenta ostentaram os quadrinhos como adultos isso principalmente nas hq americanas porém e preciso lembrar que quadrinhos TAMBÉM são coisas de crianças, hoje em dia os quadrinhos de americanos tem dificuldade até de produzir material que atinjam as crianças e a média de idade do leitor de quadrinhos está entre 18 a 30 anos material adulto não tem nada a ver com violência ou cenas de sexo uma historia pode tocar nesses temas mas o fato de usar isso como motor de suas tramas o torna adulta ou de conteúdo explicito faz ter essa categorização. assim como a vida adulta também não se concentra apenas nesses temas.

  3. 5horas 1 de fevereiro de 2012 at 23:46

    A discussão continua aqui, no facebook do sempre popular Isaac:
    http://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=161060627341194&id=100001330552671

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